Teoria Crítica
Esta teoria teve como origem alguns investigadores provenientes da Escola de Frankfurt, em 1923. Tal como o nome indica, procura analisar de forma crítica a sociedade, mas tomando-a como um todo, sem fazer distinção entre grupos. Segundo esta teoria existe uma Indústria Cultural que manipula o indivíduo. A Indústria Cultural é algo que é apresentado, imposto, fabricado para ser consumido pelo receptor. O receptor não tem controlo, torna-se um mero objecto desta indústria: “o consumidor não é soberano, como a indústria cultural queria fazer querer, não é o seu sujeito, mas o seu objecto.”[1]

A indústria cultural faz crer, ao receptor, que as necessidades criadas por si, nascem do próprio. “A sociedade é sempre a vencedora e o indivíduo não passa de um fantoche manipulado[...]”.[2] O indivíduo por muito que queira libertar-se desta indústria, não consegue: os próprios tempos livres que este tem actualmente, são cópias, ou são baseados em produtos da própria indústria cultural. Esta teoria mostra assim, um lado muito passivo, muito impotente do receptor.

Agenda – Setting
A ideia desta teoria (muitos defendem ser mais uma hipótese do que uma teoria) consiste em dividir os assuntos da sociedade em agendas (política, pública e jornalística) que apresentadas ao público para este discutir. As assuntos são igualmente hierarquizados. O receptor pode assim escolher os assuntos que mais lhe interessam, e pensar sobre eles, já que os media não nos dizem como fazê-lo, dão-nos só os assuntos.

São os media que organizam a agenda, são eles que a hierarquizam, ao receptor resta-lhe aceitar essas regras, sendo o seu papel o de escolher as suas prioridades temáticas. Um bom exemplo para ilustrar como os media fazem essa hierarquização, é por exemplo imaginarmos uma campanha política onde os media dão mais destaque às acusações trocadas entre políticos rivais, deixando de noticiar em primeiro lugar as suas propostas eleitorais.

[1] Adorno, citado por Mauro Wolf in Teorias da Comunicação, pp.148 – Theodor Adorno foi um dos alunos da Escola de Frankfurt. Caracterizado pelo seu pensamento pessimista, foi um dos criadores da Teoria Crítica
[2] idem



A Teoria Hipodérmica foi desenvolvida no período que separou as duas grandes Guerras, e coincide com o boom dos meios de comunicação de massas. Fica igualmente ligada à política propagandista dos estados totalitários europeus da época (Nazi, Fascismo italiano), pois esta teoria é também uma explicação para esse fenómeno que foi utilizado como instrumento de poder pelos líderes desses estados. Consequentemente, é também a primeira explicação para a compreensão de um conceito novo da época: o fenómeno da sociedade de massas.

Esta teoria concebe o indivíduo receptor como um elemento individual, um átomo, que é atingido directamente pela mensagem. Indivíduo[1] esse, que faz parte dessa sociedade de massas e que se regula pelo pensamento colectivo, o que a pressupõe homogeneidade da massa, negando a singularidade e a individualidade. Eu associaria a sociedade de massas a um tanque de guerra que segue o seu caminho contra tudo e contra todos, obedecendo só às directrizes do comandante (o líder carismático). Estes indivíduos recebem as mensagens sem se oporem, e muitas das vezes o seu conteúdo em nada corresponde às suas experiências, valores ou ideais. Ao receberem estas mensagens, os indivíduos tendem a afastar-se do seu círculo cultural e ideológico, sendo completamente subvertidos, manipulados pelo emissor.

Os efeitos são dados como instantâneos e certos, negando a possibilidade de serem alvo de qualquer estudo. Resumindo: temos então uma teoria virada para a explicação do fenómeno da sociedade de massas, no contexto propagandista dos estados totalitários, que concebe o indivíduo como um elemento individual e directamente atingido pela mensagem. Indivíduo esse, que, depois de receber a mensagem fica susceptível a uma manipulação por parte do emissor. Apesar de ser um pouco difícil de conseguirmos encontrar, actualmente, casos em que possamos observar a aplicação desta teoria, não é impossível. O mais próximo que se consegue encontrar é a situação de Cuba: conta com um líder carismático e autoritário que é objecto de culto por parte da população, e que põe toda a população contra o que ele quiser ou a favor do que ele quiser, sem grandes problemas.

Quando confrontamos o modelo two-step flow com a Teoria Hipodérmica, as diferenças fazem-se notar imediatamente: desenvolvido pela mesma altura da teoria da bala, o two step-flow of communication tem em conta o contexto social em que é aplicado. Prevê que uma mensagem não tem o mesmo efeito se transmitida em contextos sociais diferentes, ou, por outras palavras, a influência dos meios de comunicação sociais depende invariavelmente das características do sistema social[2] que os rodeiam.

Outra das diferenças é a questão dos efeitos da mensagem: enquanto na primeira teoria esses efeitos se regiam pelo esquema, “Estímulo à Resposta” baseado na manipulação, este modelo defende que as interacções sociais entre os indivíduos, baseados aqui na influência ,também contam para o resultado global dos efeitos provocados, e em que a acção dos meios de comunicação é só uma parte desse conjunto. Se a Teoria Hipodérmica tinha como base a propaganda, este modelo deve, em parte, o seu nascimento a um estudo de uma campanha eleitoral[3].

E foi com este estudo que se descobriram dois novos conceitos que alargam ainda mais o fosso entre estas duas teorias aqui em confronto: o primeiro é o de “líder de opinião”, e o segundo é o de “fluxo de comunicação a dois níveis”, que de resto, traduzido para inglês, é o nome deste modelo.

[1] Quando falamos de “indivíduo”, estamos a falar obviamente do “receptor”.
[2] Conjunto das várias trocas levadas a cabo pelos indivíduos, numa sociedade
[3] Wolf, Mauro, Teorias da Comunicação, pp.51 – “A investigação foi conduzida a partir de problemas como[...]o da correlação entre o grau de interesse, de motivação e de participação na campanha eleitoral[...]”



Turim - Benfica, numa bobine de Cinema.

Estrada de Benfica. Domingo. Estamos numa zona que se pode considerar como a residência da classe alta de Benfica. Os prédios altos e ricos situados na Estrada de Benfica impõem respeito a outras moradias mais pequenas que se situam igualmente na zona. Talvez de um desses grandes prédios se possa avistar o também ele grande Centro Comercial Colombo. Mas de certeza que se consegue vislumbrar também o modesto Centro Comercial Turim (com cerca de 20 lojas) onde se situa o cinema homónimo.

Aliás, o “velho Turim”, como lhe chamam alguns dos seus antigos clientes. César Pina, um dos poucos resistentes, sentado num dos bancos do átrio do edifício que alberga o cinema, recorda “os anos 80" em que passava "o dia inteiro colado a uma das cadeiras da quinta fila a ver os filmes da moda.” Sim, porque antigamente no Turim chegavam a passar “três e quatro filmes diferentes por dia”. A próxima sessão inicia às 15 horas, e César Pina já tem o seu bilhete no bolso. Enquanto o filme “Chocolate” não começa, a conversa continua, mas toma outro caminho, inevitavelmente.

O Turim, que pede emprestado o nome à famosa cidade transalpina italiana, já não é o “gigante de outros tempos”. César não deixa colocar outra questão, quer continuar com o seu raciocínio inflamado: “...primeiro os cinemas do Fonte Nova e depois o Colombo arruinaram a vida a este cinema...é impressionante que amigos meus que costumavam vir aqui às sessões comigo, tenham trocado este templo pelos capitalistas...”. O Centro Comercial Colombo e a sua dúzia de salas de cinema, entenda-se. Aproxima-se a hora do filme, mas parece que ninguém está interessado em dar um pulo à sala do Turim. O Centro está completamente vazio. Nos seus dois pisos estão vazios. Nem uma sombra. Nem passos. Cá em baixo, onde fica a sala, há uma loja de computadores e dois cafés. Quem está do outro lado do balcão de um deles é Rui Pedro, 34 anos. Rui é uma testemunha privilegiada da difícil situação por que passa o cinema. “Desde Janeiro que aqui estou e o máximo de pessoas que vi entrar para essa sala foram cerca de vinte miúdos que cá viram ver os “102 Dálmatas”. E foi num feriado!” Pensando tratar-se de um erro, perguntamos outra vez. “Ouviu bem, 20 crianças!”, reforçou Rui.

O máximo de pessoas foi 20? Precisávamos de uma confirmação de alguém que fosse realmente funcionária do cinema. Quem está na bilheteira é uma senhora de meia idade, a D. Emília, que confirma o que Rui nos tinha dito. Com uma voz conformada, confessa-nos que “hoje se forem dez pessoas a assistir ao “Chocolate”, batemos o recorde da semana”. Da semana? Mas então como será a semana de trabalho do Turim? “A maior parte das sessões não se realiza porque as pessoas simplesmente não vêm...já chagámos a ter só três pessoas a assistir a uma sessão...”. D. Emília só não se vai embora por “amor à camisola” – “Já estou aqui há muitos anos...daqui só para a reforma!”, responde-nos, finalmente com um sorriso nos lábios.

César Pina vem ao nosso encontro e aponta para o seu relógio. Compramos o bilhete (com desconto para estudantes – 2,5 Eur. Se vier à segunda-feira, o bilhete normal custa apenas 2 Eur.) e acompanhamo-lo. É incrível. Somos os únicos na sala. E a sala nem á assim tão pequena, já que tem 136 lugares. O telemóvel de César começa a tocar. Estranhamente ninguém reclama, e essa “é uma das vantagens do Turim”, brinca o nosso amigo enquanto atende o telefonema. Entretanto começa o filme e entram mais cinco pessoas. As restantes cadeiras do Turim vão ficar frias durante a sessão das três. A previsão confirma-se. Não entra mais ninguém. Depois de olhar em volta, César murmura: “Vamos é ver o filme descontraídamente...é para isso que aqui estamos”.

Concordamos, apesar de termos vindo em reportagem...é mesmo para isso que o Turim serve: para ver filmes com descontracção e com a maior calma do mundo. Além de vermos o filme, também o podemos ler. Não há tosse, não há risos adolescentes, não há som de sumo em falso a subir pela palhinha. E melhor: não há pipocas irritantes a estalar nas bocas.



1-A TIRANIA DO ACONTECIMENTO
A informação contemporânea caracteriza-se, sobretudo, pela rapidez.Tornou-se comum o ‘’directo’’, ou seja, a coincidência, no espaço e no tempo, de um acontecimento com a sua divulgação. Agora a imagem tem um grande peso na organização informativa, e esta está mais do que nunca dependente do ‘’directo’’. Porém, a informação só feita de directos é impossível, não é uma boa informação. A rapidez do tempo tecnológico e a do tempo dos media, exercem uma grande pressão sobre o tempo histórico e da sociedade. O tempo histórico e da sociedade são superados pelos tempos tecnológico e dos media - o cidadão transforma-se em espectador.

2-O EXPOSITOR MEDIÁTICO
Ou seja, como os média explicam o Mundo. A grande contradição aqui é que arealidade dada pelos média é diferente da que nos é dada pela nossa experiência. Existe um bombardeamento mediático ilustrado pelo efeito boomerang (a mensagem vai e volta, não cola no receptor) e uma rejeição da informação, devido à quantidade exacerbada. Numa sociedade bombardeada pela informação, a experiência tende a cair para 2º plano. A informação é uma experiência artificial, de plástico.

3-COMUNICAÇÃO SEM TABUS
Os media são movidos por leis de mercado e por leis monetárias, estando completamente dependentes do sector económico. Os meios mais rentáveis são o audiovisual e o radiofónico. a dependência excessiva do lucro, leva a que exista liberdade a mais. O interesse público não é, muitas vezes, respeitado pelos media privados. Wolton sugere a introdução de um mecanismo de controlo de conteúdos. Para existir espaço público é necessário existir uma série de regras. A liberalização dos conteúdos é uma ameaça ao espaço público e uma ameaça a essas regras. Há alguém que decide os conteúdos a que somos expostos, o que fere de morte de morte todas as ideias pré-concebidas sobre liberdade informativa.

4-ESTANDARDIZAÇÃO
É a imposição de um padrão. Actualmente utiliza-se o discurso político para tratar qualquer assunto. O discurso político é redutor e simplificado, encaixando a sociedade em esquemas dicotómicos - sim/não ; certo/errado ; bem/mal. É por ser uma linguagem tão simples e eficaz que se utiliza para tratar todos os assuntos, criando-se um padrão redutor dos discursos informativos e mediáticos. Deste modo, ao serem tratados por esquemas dicotómicos, os temas perdem a sua essência.

5-A PERSONALIZAÇÃO
Este ponto tem a ver com o facto de dar uma cara ao acontecimento. O texto seco, sem rosto, não vende. O público é beneficiado, pois isto permite-lhe uma maior identificação com o tema. Contudo, existem temas que não devem ser tratados desta maneira, pois leva a uma distorção da informação. Estes temas, ao serem personificados, perdem parte do seu significado, que deveria de ser mais abrangente e desprovido de categorias.

6-A IDENTIFICAÇÃO
Acção é diferente de comunicação. Falar não é agir. As pessoas, ao verem um político discursar, pensam que este está a agir, o que está completamente errado. A comunicação é a religião do nosso tempo. Agir é escolher. Os políticos disfarçam a não tomada de decisões com camadas de informação.

7-O TEMA DAS TRANSPARÊNCIAS
A ideia de que a conjugação da informação dada pelos media com a informação veiculada pelas sondagens nos dá a percepção do Mundo está ultrapassada. O Mundo é demasiado complexo para caber no universo das sondagens e dos media. Estamos numa sociedade transparente, em que toda a gente pode ver tudo.

8-O IRENISMO COMUNICACIONAL
O 'irenismo' é um consenso, um acordo. Numa democracia temos de falar a mesma língua, para nos entendermos. Resolvemos os problemas pelo diálogo, pelas ideias, em vez de utilizarmos o confronto físico. A língua está ao serviço do confronto das ideias. Hoje usamos a mesma língua, não para confrontar ideias, mas sim para dizermos a mesma coisa. Esta linguagem comum leva as pessoas a ficarem demasiado de acordo umas com as outras, o que é mau, pois assim nasce o pensamento único. Este problema agravou-se com o fim da Guerra Fria, em que só um bloco triunfou.

9-A ALDEIA GLOBAL
O Mundo é uma aldeia global em termos de técnicas, mas não em termos de aceitação de uma notícia. Há uma interacção entre o que nos chega e a nossa cultura. A aceitação de uma notícia é obviamente diferente para um português e para um japonês. A aldeia global, é assim, uma utopia não realizada, passando o pleonasmo.

10-UM ESPAÇO PÚBLICO SEM FRONTEIRAS
Estão a abolir-se as das fronteiras do 'privado'. O espaço público invade o espaço privado, com a discussão de temas do foro íntimo como a sexualidade e a morte. Está a verificar-se cada vez mais a unidimensionalidade do nosso meio, ou seja, uma sociedade com as mesmas ideias. Revela-se uma forte tendência para o esvaziamento do espaço privado.



“A televisão é uma pastilha elástica para os olhos.”
Fred Allen, comediante

A especificidade da circunstância política contemporânea de Itália, na perspectiva que interessa a este trabalho, está ancorada na constante presença dos media e das redes mediáticas. A sociedade estruturada em rede e ambientada pelos meios de comunicação funciona como um motor reorganizador da actividade política. A novidade desta política mediatizada pode ser verificada pelas inúmeras denominações inventadas para designar o novo fenómeno político: mediapolítica (Roger-Gérard Schwartzenberg), videopolítica (Giovanni Sartori e Oscar Landi, entre outros), telepolítica (Antonio Canelas Rubim), tecnopolítica (Stefano Rodotà) e ciberpolítica (diversos autores).

Os media são a chave de toda a compreensão aprofundada da política contemporânea nos países industrializados e democráticos. Assim, ao conhecimento do povo, nas democracias, tem de chegar uma informação democrática, imparcial, pois essa é aquela que é fundamental para se compreender as principais condicionantes da actuação política. Sem a democratização dos meios de comunicação, não é possível uma democracia no seu pleno.

Os governantes que são eleitos contra o ambiente gerado à volta dos media têm mais poder, mais condições para o usar e mais capacidade reformista. Mas têm também mais problemas e dificuldades. Entre os actos eleitorais, têm toda a opinião publicada contra eles, são sujeitos a uma contínua maré de críticas e ataques. Uma das críticas sistemáticas contra Berlusconi foi ser ele detentor de um poderoso grupo de comunicação social. Como já vimos, depois de ser eleito, Berlusconi continuou a ser alvo de ataques, agora da parte da televisão do estado, que ele próprio passou a controlar. A televisão, que Berlusconi considera fundamental para exercer o poder, é hoje em dia o palco preferencial para levar a cabo a espetacularização da política.

O aproveitamento completo das potencialidades da televisão por parte dos políticos, como o Primeiro-Ministro italiano, implica perceber que a lógica produtiva deste media opera em dimensões estético-culturais e de entretenimento de massas, que levam à elaboração de produtos simbólicos. O procedimento de mediatização neste campo, portanto, pode ser definido como a adaptação das mensagens políticas aos media e às suas linguagens estético-culturais características. A política mediatizada significa a “política que transita na contemporânea dimensão pública de sociabilidade, que se procura adequar ao campo e às linguagens próprias dos media”.

A adaptação ao novo ambiente implica mudanças relevantes da dinâmica política, inclusive com a absorção de novos actores (modernos meios de comunicação socias e peritos de diversos campos, tais como publicitários, analistas de sondagens, gestores de marketing), novos instrumentos operativos (do planeamento estratégico eleitoral, de produtores de imagem), novas linguagens e modos de comunicar. Foi exactamente nestes pontos que Berlusconi teve os seus trunfos para a vitória em 2001. Foram instrumentos a que a esquerda não teve acesso, pois eram controlados, na sua maior parte, pelo próprio Cavaliere.

Mas espetacularização mediática da política não se processa só no território público da política, mas também nas dimensões íntimas dos políticos. O escândalo acerca da vida privada de políticos é sem dúvida nefasto. Mas se for o próprio político a abrir a sua intimidade de livre vontade, usando os media como canal, pode funcionar a seu favor. Foi o que aconteceu com a biografia que Berlusconi enviou a doze milhões de famílias italianas, a contar a sua vida, os seus gostos e as suas ideias. Berlusconi usou os media para entrar na esfera da opinião pública e para criar um elemento de desiquilíbrio favorável a contar para as eleições de 2001.



O adjectivo ético, na linguagem comum, é aplicado a comportamentos/posturas (éticos/pouco éticos) das pessoas. A palavra portuguesa deriva de dois termos gregos muito semelhantes no seu significado e pronúncia. Éthos significa hábito ou costume - entendidos, com uma certa superficialidade, como maneira exterior de comportamento; também há o termo Êthos, que tem um significado mais amplo e completo: o de lugar ou pátria onde habitualmente se vive e o carácter habitual (ou maneira de ser ou até forma de pensar) da pessoa. Assim, o ético poderia traduzir-se por modo ou forma de vida, no sentido mais profundo da palavra, compreendendo as disposições do homem na vida, o seu carácter, costumes e também a Moral.

Os termos Ética e Moral são por vezes usados com o mesmo sentido. A distinção, no entanto, pode fazer-se referindo a Moral à prática concreta dos homens enquanto membros de uma dada sociedade, enquanto a Ética é a reflexão sobre essas práticas. De facto, a existência de ideias e atitudes morais não implica a presença de uma disciplina filosófica específica (o seu estudo pode ser ocupação da Sociologia ou da Antropologia). A Ética supõe a sua justificação filosófica, a sua explicação racional, a sua fundamentação. Deste modo, podemos dizer que o tema nuclear da Ética é os actos do ser humano, enquanto ser possuidor de razão. Os actos que são livres e, enquanto tais, correctos ou incorrectos, justos ou injustos - de um modo mais simples, bons ou maus.

Portanto, a Ética estuda o Bem e, assim, o seu objectivo é a virtude da condução da vida, facilitando a realização das pessoas de modo a que o ser humano consiga atingir um patamar próximo da perfeição, isto é, a realização de si próprio como tal, como pessoa. Em A Filosofia No século XX, Heinemann formula assim a questão central a que esperamos que a Ética responda: "Que devo escolher?” a qual inclui as seguintes questões parciais:

“1. Que devo escolher entre os bens desta terra? Há um valor supremo? Há uma hierarquia de valores?
2. Que forma de vida devo escolher? Que espécie de homem devo ser?
3. Que devo querer? Que devo fazer?"[1]

Mas nas relações sociais estas escolhas e decisões são tomadas tendo em conta que o ser humano nunca é um ser só e único, livre de interacções. Numa sociedade só é possível entender as relações do Homem na medida em que se conte com o Outro. A Ética do Homem, projecta-se, assim, no outro. A nossa Ética afecta o Outro, e afecta as relações interpessoais que temos com o Outro. É portanto, um conceito indissociável do conceito de Liberdade, que vamos introduzir de seguida.

E a Liberdade entra no domínio da Ética na medida em que é objectivo desta preservar e promover as liberdades pública e privada de modo tal a possibilitar a maior realização possível das diversas singularidades (dentro da esfera das relações com o Outro) humanas que não sejam contraditórias à própria promoção da Liberdade. Logo, a Liberdade apresenta-se-nos como o espaço em que Eu realizo a minha vontade, delimitado pelo escrúpulo. E esse espaço é a Ética.
A Liberdade, no entanto, não é uma qualidade transcendental ou metafísica, ou uma simples ideia suposta como condição da responsabilidade individual pela acção moral. Pelo contrário, a Liberdade é um exercício histórico, delimitado por um contexto social particular.

Por ser de tal modo histórica, a Liberdade supõe condições políticas, educativas e também éticas para se realizar como manifestação de cidadania. Por isso é que no tempo do Nazismo, por exemplo, a Ética não é entendida como nós a entendemos hoje. Era condicionada por outros factores e tinha outro sentido que era reflectido pelo contexto em que se vivia. A juntar a estes conceitos temos ainda o de Lealdade. De facto, a Lealdade para com o outro é o garante de um bom comportamento ético e de um bom exercício de Liberdade. Vemos, então, que a ética existe em função da necessidade de o Homem agir dentro de determinadas regras de conduta para com o Outro (Contrato de Lealdade e Livre Arbítrio)[2].

Mas o individualismo contemporâneo faz dos indivíduos cada vez mais isolados e preocupados consigo próprios. O importante é ter uma boa profissão e um bom salário. Será o que acontece actualmente no Jornalismo? O Jornalismo é uma profissão peculiar. Há um Código Deontológico mas muitas são as discussões sobre qual é a entidade que regula e/ou vigia o 4º Poder. Nelson Traquina apresenta uma teoria diferente que não passa por nenhuma instituição oficial semelhante a uma Ordem dos Advogados.

“Os cidadãos, assumindo plenamente a sua cidadania, devem vigiar o Quarto Poder.” Mas o que significa “assumir plenamente a sua cidadania” ? Segundo Traquina, a plena cidadania refere-se “à (...) capacidade de compreensão dos assuntos cívicos e de avaliação crítica das notícias.”[3]

[1] Heinemann, Fritz - A Filosofia no século XX, 2ª edição, FCG, Lisboa, 1979, p.434
[2] Apontamentos pessoais, cadeira de Ética e Deontologia do Jornalismo, Escola Superior de Comunicação Social, Curso de Jornalismo, 3º ano (2002-2003).
[3] Traquina, Nelson, “Opinião: Quem vigia o Quarto Poder?”, Newsletter da Obercom, Novembro 2002 (www.obercom.pt)



Os fait divers permitem ao público focalizar um sentimento de ansiedade difusa, gerada por um clima latente de insegurança (real ou suposta).O que interessa ao público que aprecia os fait divers é ver a sua própria história no jornal, ou o que poderá vir a acontecer-lhe, quer se encontre em proximidade sócio-cultural ou geográfica. Essa mistura do habitual e do insólito produz medo mas ao mesmo tempo permite que a angústia latente se fixe, no sentido químico do termo, cristalizando num objecto preciso. Se o medo existe na realidade vivida por um qualquer indivíduo, ele adquire uma dimensão colectiva e individual quando veiculado pelos media.

Os jornais de referência consagram uma parte mínima do seu espaço aos fait divers e relativizam a importância destes face a outras informações. Os jornais populares – que são os mais lidos – reservam-lhes uma parte significativa do seu espaço redactorial, criando, assim, um sentimento de envolvimento e de invasão generalizada da violência, por parte dos seus leitores.

As personagens que aparecem nas páginas dos jornais ou que vemos na televisão, representam importantes superfícies de investimento psíquico, ao mesmo título que os heróis do romance.
As pessoas reais que ocupam as primeiras páginas da actualidade aparecem aos olhos dos leitores e espectadores, como seres de papel, na medida em que estão afastados do mundo do receptor. Surgem portadores de uma certa aura devido à sua representação mediática.
Esta confusão entre heróis ficcionais e pessoas reais é habilmente explorada em certos reality-shows, onde as situações da vida quotidiana são filmadas segundo as técnicas próprias do filme policial e onde a confusão entre real e ficção é mantida permanentemente.



Durante bastante tempo, a literatura, e as artes estiveram organizadas em “escolas”, escolas que eram do tipo “arborecescente” (vem de árvore) E para Claire Parnet esta organização em “escolas” é sempre prejudicial porque pela sua própria organização interna provocam a esterilização dos discípulos. Estas escolas têm sempre um “papa”, manifestantes, representantes, ideais de mudança e de ruptura, tribunais...E é isto que provoca a esterilidade...este tipo de organização em que a estrutura é sempre a mesma, não muda. Não existe uma verdadeira quebra com todo o sistema instalado. Por isso é que não estou bem de acordo com a Isabel quando ela diz que as árvores são ideias novas que nos crescem na cabeça. Para mim, são um corpo de ideias sim, mas intimamente ligadas à tradição, com raízes profundas, com um tronco comum...

Actualmente, as escolas,já não são pagas, e tornaram-se uma espécie de empresa de marketing, onde o objecto de estudo já não se debruça sobre os livros, mas mais sobre a actualidade, através de artigos de jornais, emissões televisivas, debátes, colóquios... será a morte do livro, tal como MacLuhan a anunciou?

Como o principal objecto de estudo passa a ser a própria actualidade, o jornalismo ganha cada vez maior importância. E à medida que o jornalismo começa a criar cada vez mais os acontecimentos que irá posteriormente cobrir, descobre-se ele próprio como autor. Ou seja, sabemos que há cada vez mais pseudo-eventos, criados pelos próprios jornalistas por uma diversidade de factores que já todos estudámos...Se é o jornalismo que os cria, então o jornalismo torna-se também autor.

Só que isto faz com que as relações entre jornalismo e literatura, o jornal e o livro, mudem completamente. Os escritores e intelectuais passam a estar ao serviço dos jornalistas ou tornam-se eles próprios jornalistas. É como se tornassem “domesticados” pelos entrevistadores, pelos mediadores dos debates... Há como que uma “jornalização” dos escritores. (Claire Parnet chama-lhe “exercícios de palhaços”).

Já não existe a função de autor per si. Agora existem é funções criadoras..Não há sujeito, mas agentes de enunciação colectivos, não há especificidades, mas populações... ou deja, há populações de música – escrita – ciência – audiovisuais com as suas influências nos trabalhos umas das outras. O MEIO é outro dos assuntos abordado por Claire Parnet...para ela, e também para Deleuze, numa linha é necessário encontrar sempre o meio, o que é importante é o meio e não o princípio ou o fim. E este MEIO não tem nada a ver com médias ou centrismos. O MEIO é aquilo de que falámos na aula passada, é o que existe onde se dá o ENCONTRO que gera o NOVO.

Temos a tendência de dividir a realidade, o mundo em esquemas dicotómicos, esquemas esses que só separam, não conectam, não partilham, não se partilham,,, O meio é a potencialidade, é o que existe, ou poderá existir ENTRE as duas realidades que são amplamente assumidas. Nós no jornalismo temos a mesma tendência do resto do mundo, que é a de dividir a realidade em bom/mau, herói/vilão, rico/pobre, tradição/moderno...e muitas vezes fica tanto por explorar... É por isso, que os autores defendem que estes princípios são difíceis de explicar, porque no fundo são apenas potencialidades, são coisas da ordem do possível, não são ideias palpáveis ou que utilizemos todos os dias.

A ideia de DEVIR é também desta ordem. Claire Parnet diz a dada altura que DEVIR é DEVIR simplesmente. O DEVIR não tem história, não tem passado nem presente. O DEVIR não tem um princípio ou um fim, são os acidentes de percurso, não apenas nas vidas humanas. São as possibilidades que muitas vezes não se concretizam porque optamos por uma outra possibilidade – às vezes nem optamos porque já temos um plano estipulado (mas mesmo isso é uma opção). O DEVIR é encarado como uma intensidade, como uma velocidade absoluta. E uma velocidade absoluta é diferente de uma velocidade relativa. A Velocidade Relativa é a velocidade de um movimento de um ponto ao outro, ou seja, com princípio e fim. Mas o que importa é o meio, daí a importância da velocidade absoluta.

A Velocidade Absoluta é uma intensidade que permite traçar uma linha de fuga. Por isso é que parnet diz que a velocidade absoluta é a velocidade dos nómadas, mesmo quando eles se deslocam lentamente ou quando estão simplesmente parados. Uma velocidade absoluta pode ser uma imanência, não é um movimento. E os nómadas traçam uma linha de fuga, criam um espaço liso, desterritorializam-se. Se bem que eu também acho que acabem por se formar numa comunidade com valores e regras e que acabam por listrar o seu próprio território... Mas esta velocidade absoluta do DEVIR não é mensurável, é apenas o modo de estar presente ao espaço.
Eu penso que todo o texto de Deleuze e Parnet acaba por criticar o modo como se vive, como se vive num espaço... É uma crítica às máquinas de reprodução, aos sistemas binários que separam, que afastam, que dividem, em vez de aproximarem.

Para Deleuze, Viver é da ordem do DEVIR e não da ordem da História, Viver é experimentar o que está ENTRE, o que está no MEIO. A potencialidade de Deleuze está lá em latência, em potência. Parnet dá vários exemplos de como criar linhas de fuga, de como criar novas experiências, de como produzir o NOVO. Por exemplo acha que através da escrita isso se consegue...e dá exemplos de autores como Virginia Wolf ou Thomas Hardy. Segundo Deleuze eles criam uma nova Terra, tentam a desterritorialização.

No meu ponto de vista estas ideias, apesar de interessantes acabam por ser um pouco utópicas, porque todo este circuito de tentar escapar às sucessivas territorializações que nos vão sendo impostas, só vão criar novas territorializações. É como a ideia da tradição vs modernidade. A modernidade é impossível de se consumar, porque no momento em que se rompe com os valores pré-estabelecidos, tradicionais, e os novos passam a ser aceites, a modernidade acaba. É uma lógica ambivalente pois assim que é posta em prática perde o seu sentido. E o mesmo se passa com as linhas de fuga que tentamos traçar, para conseguirmos viajar com o pensamento...Quando construímos linhas de fuga vamos criar um NOVO que vai invitavelmente acabar por ser velho.



A passagem da modernidade para a contemporaneidade ocasionou a mudança de um modelo de sociedade. De uma sociedade vista por Foucault como “Disciplinar”, para um modelo de sociedade identificada por Gilles Deleuze (1992) como de “controle”.

A chamada sociedade de controle é um passo à frente da sociedade disciplinar. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes.

Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjectividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. A forma cíclica e o recomeço contínuo das sociedades disciplinares modernas dão lugar à modulação das sociedades de controle contemporâneas nas quais nunca se termina nada mas exige-se do homem uma formação permanente.

Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo nomadismo que se expande junto às redes de informação.
Se nas sociedades disciplinares o modelo Panóptico é dominante, implica o observador estar de corpo presente e em tempo real a observar-nos e a vigiar-nos, nas sociedades de controle esta vigilância torna-se virtual. As sociedades disciplinares são essencialmente arquitecturais: a casa da família, o prédio da escola, o edifício do quartel, o edifício da fábrica. Por sua vez, as sociedades de controle apontam uma espécie de anti-arquitectura. A ausência da casa, do prédio, do edifício é fruto de um processo em que se caminha para um mundo virtual.

É importante perceber que na sociedade de controle, o aspecto disciplinar não desaparece, apenas muda a actuação das instituições. Os dispositivos de poder que ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições passam a adquirir total fluidez, o que lhes permite actuar em todas as esferas sociais. Entre os princípios norteadores desta dinâmica, destaca-se a abolição do confinamento enquanto técnica principal.

É neste sentido que a noção de confinamento, amplamente utilizada a partir do séc. XVIII, norteadora do funcionamento desses estabelecimentos, deixou de ser a estratégia principal do exercício do poder. O controle ao contrário, ultrapassa a fronteira entre o público e o privado. Aqui, reside um dos aspectos fundamentais na construção da passagem da sociedade disciplinar para a de controle: há um processo de instauração da lógica do confinamento, em toda a sociedade, sem que seja necessária a existência de muros que separem o lado de dentro das instituições do seu exterior.

Há uma vigilância contínua, concretizada pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte: no comercio, bancos, escolas e até mesmo nas ruas. Isto traz a dimensão da sociedade auto-vigiada, mas assente nas novas tecnologias, idealizada por Jeremy Bentham, cujo Panóptico expressa a sua concepção arquitectónica. Uma vigilância intensificada pela disseminação de dispositivos tecnológicos de vigilância presentes até mesmo ao “ar livre”. Todos podem e querem espiar todos. Trata-se da reinvenção do Panóptico benthaniano que passa a actuar com o objectivo de transformar, de maneira extensiva e intensiva, os modos de viver, pensar e agir dos indivíduos.

Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento, o que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber. O poder é, assim, exercido à distância.

A sociedade de controle redimensiona e amplifica os pilares constituintes da sociedade disciplinar. Como argumenta G. Deleuze, a passagem de uma sociedade disciplinar a uma sociedade de controle, tem como estratégia fundamental esvaziar a imagem da sua virtualidade, para a tornar pura informação, parte dos dispositivos de vigilância e monitorização. Ao atribuir à imagem a potencialidade da informação, deslocamos a abordagem do campo de representação, passando a compreende-la enquanto a própria expressão dos acontecimentos. “Não creio que os media tenham muitos recursos ou vocação para captar um acontecimento. Primeiro, eles mostram com frequência o começo e o fim, ao passo que um acontecimento, mesmo breve, mesmo instantâneo prolonga-se” (Deleuze, 1992; Pág:198).

Vattimo também chamava a atenção para o facto dos mass media não transmitirem uma realidade ordenada e objectiva. São apenas capazes de alcançar a realidade que é palco do cruzamento das várias ideias, opiniões e interpretações.

Seja na cobertura de uma guerra, seja acompanhando as rotinas exibicionistas dos reality shows, as imagens que nos chegam parecem não se interessar mais pelo acontecimento, mas apenas em reafirmar o seu olhar omnipresente, sob o qual tudo se passa e nada passa despercebido.



O pensamento deleuzo-guattariano não pode ser caracterizado como uma fraude, visto que ele é totalmente coerente com o seu projeto: tratar o pensamento como experimentação, criação e viagem. Filosofar é criar e não participar de um encontro de "convivas bêbados", de uma " grande conversação". Para realizar essa experimentação, Deleuze e Guattari se alimentaram da "potência do falso".

Tratar o pensamento como criação é uma forma de conceber a vida como processo de criação, uma "obra de arte" constantemente vinculada a produção de singularidades e diferenças. Explodir a estratificação do conhecimento, bem como liberar intensidades ( acontecimentos) criativas é uma maneira de dissolver o pensamento reduzido às convenções autoritárias para a busca do conhecimento. O projeto filosófico de Deleuze e Guattari é o de uma filosofia da diferença, do nomadismo, das multiplicidades. A filosofia como criação de conceitos auto-referentes.

A filosofia deleuzo-guattariana é uma experimentação na ordem dos conceitos, o que caracteriza o chamado construtivismo filosófico baseado na criação de conceitos e no implante do plano de imanência. Para Deleuze e Guattari, a filosofia é a invenção de conceitos, estes possuem um rol de dados que permitem o conhecimento do modo de construção filosófica optado por Deleuze e Guattari. A tese fundamental é a seguinte: a filosofia é criação de conceitos; ora, se os conceitos auto-referentes e se a filosofia é feita de conceitos, então pode-se dizer que tal método de fazer filosofia se transforma em um discurso auto-referente, ou seja, conhecimento de si própria e não do mundo.

A postura deleuzo-guattariana sobre o que é a filosofia implica uma construção conceitual, mas se estes são auto-referentes, então a filosofia que é composta de conceitos também acaba por se transformar em auto-referência. O uso dos conceitos como singularidades produz o relativismo construtivista, que é caracterizado pela construção individual de conceitos, ou de modo sincero, cada um constrói seus conceitos e tudo fica por isso mesmo. Esse relativismo é, ao meu ver, a morte da filosofia, pois destrói um pressuposto básico filosófico: a comunicação.

Todos os movimentos de conceitos são percebidos no conjunto de livros em parceria com o psicanalista Félix Guattari. Mil platôs, tomo que dá continuação a O Anti-Édipo, é o livro dos conceitos. Deleuze chegou a considerar os seus platôs como o melhor de tudo que já tinha escrito. Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari trabalham a filosofia de modo criativo, o pensamento conceitual atinge toda sua imanência, palavras de ordem não-filosófica adquirem estatuto filosófico, por exemplo: "rizoma", "corpo sem órgãos", "agenciamentos", "desterritorialização"; tais conceitos (e não metáforas) são utilizados para explicar ontologia, filosofia política, música, arte, ciência e uma multiplicidade heterogênea que pode ser atualizada como pensamento nômade, ou seja, que se preocupa com a criação conceitual e com o sentido.

O que está em jogo na questão do pensamento é a criação; tanto a filosofia como a ciência e a arte a fazem, nenhuma ocupa hierarquia em relação a outra, visto que essas três manifestações do conhecimento se ocupam da criação. Vejamos, assim, brevemente, como a ciência e a arte são concebidas por Deleuze e Guattari.

O plano de imanência- imagem do pensamento- é, no dito de Pelbart, o "pensamento sem imagem", "sem modelo" e "sem forma"; ou seja, para usar o estranho conceito de Deleuze e Guattari, o "espaço liso- vetorial", cortado por intensidades, por forças criativas de atualização da diferença múltipla que passam pelo virtual com um corte que retira dele consistência. O plano é a possibilidade de orientação do pensamento, o terreno pré-filosófico que vai traçar coordenadas para a construção conceitual. O plano é a casa do conceito, seu território.

O construtivismo filosófico se baseia na criação de conceitos e na instauração do plano de imanência.



"Há muita gente que sonha ser traidora. Acreditam nisso, acreditam que são traidores. Porém não passam de pequenos batoteiros. É que trair, é difícil, é criar. É preciso com isso perder a identidade, o rosto. É preciso desaparecer, devir desconhecido.” - Deleuze

O fim, a finalidade de escrever? Muito para além ainda de um devir-mulher, de um devir-preto, animal, etc., para além de um devir-minoritário, há a tarefa final de devir-imperceptível. Um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido. O imperceptível, característica comum da mais alta velocidade e da maior lentidão.

Perder o rosto, saltar ou furar o muro, limá-lo muito pacientemente, escrever não tem outro fim. É o que Fitzgerald chamava verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos Mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve devir animal, devir preto ou mulher). Ser finalmente desconhecido, como muito pouca gente o é, é isso, trair. É muito difícil deixar de ser conhecido, mesmo da porteira, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo. No final de TERNA É A NOITE, o herói dissipa-se literalmente, geograficamente. O belo texto de Fitzgerald, THE CRACK UP, diz: "Eu sentia-me como os homens que via nos combois de subúrbio, em Great Neck, já lá vão quinze anos…"

Há todo um sistema social que poderíamos chamar sistema muro branco - buraco negro. Estamos todos pregados no muro das significações dominantes, estamos sempre enterrados no buraco da nossa subjectividade, o buraco negro do nosso Eu que nos é o mais caro de tudo. Muro onde se inscrevem todas as determinações objectivas que nos fixam, nos encaixilham, nos identificam e nos fazem reconhecer; buraco onde nos alojamos, com a nossa consciência, os nossos sentimentos, as paixões, os nossos pequenos segredos demasiado conhecidos, o nosso desejo de os fazer conhecer.

Ainda que o rosto seja um produto deste sistema, é uma produção social: grande rosto de faces brancas, com o buraco negro dos olhos. As nossas sociedades têm necessidade de produzir rosto. Cristo inventou o rosto. O problema de Miller (que já era o de Lawrence): como desfazer o rosto, libertanto em nós as escavadoras que traçam linhas de devir? Como passar o muro, evitando ressaltar, para trás, ou ser esmagados? Como sair do buraco negro, em vez de girar no fundo, que partículas fazer sair do buraco negro? Como quebrar mesmo o nosso amor para se ser finalmente capaz de amar? Como devir imperceptível?

Ali onde já não temos segredos, já não temos nada a esconder. Somos nós que nos tornámos num segredo, somos nós que estamos escondidos, ainda que o que fazemos o façamos abertamente, à luz crua. […]

Molar (arvore) comportamento da norma – um estimulo = sempre a mesma resposta
Molecular (rizoma) comportamento além da norma – um estimulo = resposta diferente conforme a situação (uns elemntos perdem-se, e aparecem outros).
O espaço liso-vectorial é o de menor intervalo, de pontos infinitamente próximos. Um espaço de pequenas açcões de contato, táctil, não visual. O espaço liso é um meio sem horizonte, como o deserto ou o mar. Não existem distância intermediária, perspectiva ou contorno. O espaço liso é o meio, é o muro branco, é o devir. O espaço liso não comporta fundo nem contorno, mas mudanças direcionais e ligações de partes locais. Linha abstrata de variação, em banda, espiral, S e zigzag, que escapa à geometria, sem traçar contorno nem delimitar forma.

Espaço estriado-métrico revela um pensamento hierarquizado, ilusionado pela transcendência (vida eterna, deus e alma), submetido aos dogmas e com pretensões de ser fechado, o pensar revestido de necessidades escatológicas, o pensar que deseja a verdade e a fundamentação última. Esta é a raiz introjectada no pensamento.

Imanencia – Transcendência - Criar conceitos é, no intento deleuzo-guattariano, criar sentido no plano de imanência, e não sair dele e não buscar uma referência ulterior ao seu território ( se a verdade existe, então ela está no sentido das conjunções dos conceitos no plano; logo, é construção da linguagem); Deleuze e Guattari não têm, pelo que parece, o desejo de buscar uma referência fora do plano. O movimento do pensamento a partir dos conceitos permite estabelecer a conclusão de que os conceitos são objetos imanentes a um horizonte, rizomas (sistemas a-centrados e não hierárquicos) que realizam conexões, ligamentos e junções sempre horizontalmente num mesmo plano ou não (perpetrar a construção de sentido), sem ultrapassar o plano verticalmente, ou seja, evitar a realização de uma experiência que centre o pensamento em uma realidade ulterior, sobrenatural, mística e que se preocupe com uma adequação do conceito com a coisa ou com estados de coisas; "desterritorializar" o pensar por figuras de cunho transcendental (no sentido escolástico) é uma das propostas de Deleuze e Guattari.

A imanência do conceito impede o figurar, o pensar por imagens, a busca de verdades fora do plano. Criar conceitos e produzir sentido têm uma ligação essencial com a linguagem, o pensamento como corolário da ordenação da linguagem; os conceitos são manifestações da linguagem, e a filosofia- do modo que Deleuze e Guattari a encaram- me parece se reduzir a um jogo de coerência da linguagem, ou melhor, um jogo de conceitos com consistência em seus devires.



Todo o devir é duplo :
O indizivel torna-se dizivel
A linguagem também tem de mudar para suportar o novo dizivel. O indizivel torna-se possivel graças à linguagem, mas não deixa de ser extra-linguistico

O devir é viver no que se escapa a qualquer codificação, é extrair maneiras de viver que fujam à norma, que não sejam dominantes na sua forma de existir, é não abusar dos clichés, dos dualismos, e traçar novos territórios, novas linhas de fuga. É pensar numa contra-cultura, numa cultura de sabotagem à tradição vigente. O devir é sabotar a tradição, é a alternativa, é o escape, é a libertação do pensamento da hierarquia da árvore (Chomsky).

Devir é a criação, é a fuga à filosofia que só se preocupa em analisar, criticar e estudar os velhos filosofos, em vez de tentar criar novas ideias, de por em causa, de começar a partir do meio. Romper com a norma implica ser gago. Os livros mais belos estão escritos numa espécie de lingua estrangeira, porque os seus autores são gagos, usam a gaguez, para escrever. Saramago e Kafka escrevem num estilo que não se inclui nos estilos mais populares, nos modelos de sucesso. Saramago não usa pontuação, e Kafka usa a escrita do absurdo, que põe tudo em causa.
No Processo, a trama é cheia de gaguez, é diferente, foge à norma – vão buscar K. a casa elevam-no para ser julgado. Nem nós nem ele sabe porque é que vai ser julgado, e K. acaba mesmo por não ser formalmente acusado ou julgado.

Deleuze filosofo da multiplicidade. Multiplicidade de pensamentos com Guattari e não pensamento conjunto. Pensamento conjunto é o pensamento rígido. Com a multiplicidade, cada um pensa coisas diferentes, pensa de forma rizomática, criando linhas de fuga.

Para mim, não basta ser moderno. A modernidade é a continuação da tradição, é a sua evolução. Se todos estivessem no dominio da modernidade, então ela passava a ser tradição, passava de coisa nova a coisa velha. A tradição de hoje já foi Modernidade em tempos.
A questão é ser diferente, mais que ser moderno. É ser pentágono numa sociedade de círculos, de pensamentos arbóreos, rígidos, com principio e fim. É ser erva daninha no meio de um jardim de belas flores. As flores são artificiais, crescem no canteiro, mas não podem crescer no meio do nada, entre as pedras de um passeio. A erva daninha sim, ela é natural e cresce em todo o lado, tem linhas de fuga, ela é o pensamento rizomático, a criadora de coisas novas.

O Buraco Negro é a estagnação, ele é o nemesis da erva daninha e do pensamento rizomatico.
O Buraco Negro é a norma dominante e estática que deixa sair e entrar nada. O buraco negro é a tradição, a erva é a ruptura com a tradição.
É verdade que é mais comodo seguir a tradição e mais facil utilizar dualismos, o sistema binário, para entendermos o mundo, permite a categorização simples. A máquina binária é uma comodidade. Mas há coisas que nos escapam. Há os maus e os bons, há os bons vilões. Há homens e mulheres, mas há homossexuais, o devir-homossexual, ou devir-travesti. Tem de existir mais muros brancos, mais espaços lisos, livres de signos, de ideias pré-concebidas, livres de árvores.

O devir não tem passado nem futuro, o devir não se dirige a um ponto nem parte de outro. O devir é o meio. Devir é rizoma, é pensar no meio, encontrar o meio, ser diferente a meio. Aqui não há meio nem fim. O devir cria ligações, espalha-se como um rizoma, não cria pontos de ordem.

As escolas tentam ecapar, cada vez mais à hierarquia arborescente e rígida. Substitui-se o livro pela actualidade do jornalismo. Os exemplos tiram-se da actualidade das noticias e não na tradição do livro. E se o jornalismo cria matéria para ser discutida e estudade, então constitui-se como processo de criação, o jornalista torna-se autor.

Desafio é encontrar o meio entre as dicotomias. Cair no binarismo é um erro. Encontrar o meio é o caminho, é o devir, é tornar-se diferente, é encontrar outra possibilidade.
O devir é a velocidade absoluta, é a linha de fuga.
A velocidade relativa é medida entre dois pontos, mas a absoluta não. A velocidade absoluta pode ser mesmo quando se está parado, é a velocidade dos nómadas.
A velocidade absoluta é a desterritorialização, é tirar conceitos de um meio e adaptá-los a outra terra, criando uma nova terra. È tirar o conceito Buraco Negro da astronomia e aplicá-lo a uma filosofia do futuro, é tirar o Rizoma das ciencias naturais e aplicá-lo à gramática e ao pensamento.