"Há muita gente que sonha ser traidora. Acreditam nisso, acreditam que são traidores. Porém não passam de pequenos batoteiros. É que trair, é difícil, é criar. É preciso com isso perder a identidade, o rosto. É preciso desaparecer, devir desconhecido.” - Deleuze
O fim, a finalidade de escrever? Muito para além ainda de um devir-mulher, de um devir-preto, animal, etc., para além de um devir-minoritário, há a tarefa final de devir-imperceptível. Um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido. O imperceptível, característica comum da mais alta velocidade e da maior lentidão.
Perder o rosto, saltar ou furar o muro, limá-lo muito pacientemente, escrever não tem outro fim. É o que Fitzgerald chamava verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos Mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve devir animal, devir preto ou mulher). Ser finalmente desconhecido, como muito pouca gente o é, é isso, trair. É muito difícil deixar de ser conhecido, mesmo da porteira, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo. No final de TERNA É A NOITE, o herói dissipa-se literalmente, geograficamente. O belo texto de Fitzgerald, THE CRACK UP, diz: "Eu sentia-me como os homens que via nos combois de subúrbio, em Great Neck, já lá vão quinze anos…"
Há todo um sistema social que poderíamos chamar sistema muro branco - buraco negro. Estamos todos pregados no muro das significações dominantes, estamos sempre enterrados no buraco da nossa subjectividade, o buraco negro do nosso Eu que nos é o mais caro de tudo. Muro onde se inscrevem todas as determinações objectivas que nos fixam, nos encaixilham, nos identificam e nos fazem reconhecer; buraco onde nos alojamos, com a nossa consciência, os nossos sentimentos, as paixões, os nossos pequenos segredos demasiado conhecidos, o nosso desejo de os fazer conhecer.
Ainda que o rosto seja um produto deste sistema, é uma produção social: grande rosto de faces brancas, com o buraco negro dos olhos. As nossas sociedades têm necessidade de produzir rosto. Cristo inventou o rosto. O problema de Miller (que já era o de Lawrence): como desfazer o rosto, libertanto em nós as escavadoras que traçam linhas de devir? Como passar o muro, evitando ressaltar, para trás, ou ser esmagados? Como sair do buraco negro, em vez de girar no fundo, que partículas fazer sair do buraco negro? Como quebrar mesmo o nosso amor para se ser finalmente capaz de amar? Como devir imperceptível?
Ali onde já não temos segredos, já não temos nada a esconder. Somos nós que nos tornámos num segredo, somos nós que estamos escondidos, ainda que o que fazemos o façamos abertamente, à luz crua. […]
Molar (arvore) comportamento da norma – um estimulo = sempre a mesma resposta
Molecular (rizoma) comportamento além da norma – um estimulo = resposta diferente conforme a situação (uns elemntos perdem-se, e aparecem outros).
O espaço liso-vectorial é o de menor intervalo, de pontos infinitamente próximos. Um espaço de pequenas açcões de contato, táctil, não visual. O espaço liso é um meio sem horizonte, como o deserto ou o mar. Não existem distância intermediária, perspectiva ou contorno. O espaço liso é o meio, é o muro branco, é o devir. O espaço liso não comporta fundo nem contorno, mas mudanças direcionais e ligações de partes locais. Linha abstrata de variação, em banda, espiral, S e zigzag, que escapa à geometria, sem traçar contorno nem delimitar forma.
Espaço estriado-métrico revela um pensamento hierarquizado, ilusionado pela transcendência (vida eterna, deus e alma), submetido aos dogmas e com pretensões de ser fechado, o pensar revestido de necessidades escatológicas, o pensar que deseja a verdade e a fundamentação última. Esta é a raiz introjectada no pensamento.
Imanencia – Transcendência - Criar conceitos é, no intento deleuzo-guattariano, criar sentido no plano de imanência, e não sair dele e não buscar uma referência ulterior ao seu território ( se a verdade existe, então ela está no sentido das conjunções dos conceitos no plano; logo, é construção da linguagem); Deleuze e Guattari não têm, pelo que parece, o desejo de buscar uma referência fora do plano. O movimento do pensamento a partir dos conceitos permite estabelecer a conclusão de que os conceitos são objetos imanentes a um horizonte, rizomas (sistemas a-centrados e não hierárquicos) que realizam conexões, ligamentos e junções sempre horizontalmente num mesmo plano ou não (perpetrar a construção de sentido), sem ultrapassar o plano verticalmente, ou seja, evitar a realização de uma experiência que centre o pensamento em uma realidade ulterior, sobrenatural, mística e que se preocupe com uma adequação do conceito com a coisa ou com estados de coisas; "desterritorializar" o pensar por figuras de cunho transcendental (no sentido escolástico) é uma das propostas de Deleuze e Guattari.
A imanência do conceito impede o figurar, o pensar por imagens, a busca de verdades fora do plano. Criar conceitos e produzir sentido têm uma ligação essencial com a linguagem, o pensamento como corolário da ordenação da linguagem; os conceitos são manifestações da linguagem, e a filosofia- do modo que Deleuze e Guattari a encaram- me parece se reduzir a um jogo de coerência da linguagem, ou melhor, um jogo de conceitos com consistência em seus devires.