Reportagem Número 1


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Turim - Benfica, numa bobine de Cinema.

Estrada de Benfica. Domingo. Estamos numa zona que se pode considerar como a residência da classe alta de Benfica. Os prédios altos e ricos situados na Estrada de Benfica impõem respeito a outras moradias mais pequenas que se situam igualmente na zona. Talvez de um desses grandes prédios se possa avistar o também ele grande Centro Comercial Colombo. Mas de certeza que se consegue vislumbrar também o modesto Centro Comercial Turim (com cerca de 20 lojas) onde se situa o cinema homónimo.

Aliás, o “velho Turim”, como lhe chamam alguns dos seus antigos clientes. César Pina, um dos poucos resistentes, sentado num dos bancos do átrio do edifício que alberga o cinema, recorda “os anos 80" em que passava "o dia inteiro colado a uma das cadeiras da quinta fila a ver os filmes da moda.” Sim, porque antigamente no Turim chegavam a passar “três e quatro filmes diferentes por dia”. A próxima sessão inicia às 15 horas, e César Pina já tem o seu bilhete no bolso. Enquanto o filme “Chocolate” não começa, a conversa continua, mas toma outro caminho, inevitavelmente.

O Turim, que pede emprestado o nome à famosa cidade transalpina italiana, já não é o “gigante de outros tempos”. César não deixa colocar outra questão, quer continuar com o seu raciocínio inflamado: “...primeiro os cinemas do Fonte Nova e depois o Colombo arruinaram a vida a este cinema...é impressionante que amigos meus que costumavam vir aqui às sessões comigo, tenham trocado este templo pelos capitalistas...”. O Centro Comercial Colombo e a sua dúzia de salas de cinema, entenda-se. Aproxima-se a hora do filme, mas parece que ninguém está interessado em dar um pulo à sala do Turim. O Centro está completamente vazio. Nos seus dois pisos estão vazios. Nem uma sombra. Nem passos. Cá em baixo, onde fica a sala, há uma loja de computadores e dois cafés. Quem está do outro lado do balcão de um deles é Rui Pedro, 34 anos. Rui é uma testemunha privilegiada da difícil situação por que passa o cinema. “Desde Janeiro que aqui estou e o máximo de pessoas que vi entrar para essa sala foram cerca de vinte miúdos que cá viram ver os “102 Dálmatas”. E foi num feriado!” Pensando tratar-se de um erro, perguntamos outra vez. “Ouviu bem, 20 crianças!”, reforçou Rui.

O máximo de pessoas foi 20? Precisávamos de uma confirmação de alguém que fosse realmente funcionária do cinema. Quem está na bilheteira é uma senhora de meia idade, a D. Emília, que confirma o que Rui nos tinha dito. Com uma voz conformada, confessa-nos que “hoje se forem dez pessoas a assistir ao “Chocolate”, batemos o recorde da semana”. Da semana? Mas então como será a semana de trabalho do Turim? “A maior parte das sessões não se realiza porque as pessoas simplesmente não vêm...já chagámos a ter só três pessoas a assistir a uma sessão...”. D. Emília só não se vai embora por “amor à camisola” – “Já estou aqui há muitos anos...daqui só para a reforma!”, responde-nos, finalmente com um sorriso nos lábios.

César Pina vem ao nosso encontro e aponta para o seu relógio. Compramos o bilhete (com desconto para estudantes – 2,5 Eur. Se vier à segunda-feira, o bilhete normal custa apenas 2 Eur.) e acompanhamo-lo. É incrível. Somos os únicos na sala. E a sala nem á assim tão pequena, já que tem 136 lugares. O telemóvel de César começa a tocar. Estranhamente ninguém reclama, e essa “é uma das vantagens do Turim”, brinca o nosso amigo enquanto atende o telefonema. Entretanto começa o filme e entram mais cinco pessoas. As restantes cadeiras do Turim vão ficar frias durante a sessão das três. A previsão confirma-se. Não entra mais ninguém. Depois de olhar em volta, César murmura: “Vamos é ver o filme descontraídamente...é para isso que aqui estamos”.

Concordamos, apesar de termos vindo em reportagem...é mesmo para isso que o Turim serve: para ver filmes com descontracção e com a maior calma do mundo. Além de vermos o filme, também o podemos ler. Não há tosse, não há risos adolescentes, não há som de sumo em falso a subir pela palhinha. E melhor: não há pipocas irritantes a estalar nas bocas.


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